Diário de uma Colcionadora


1.     Querido Diário

Sabe, tenho muitas histórias para contar e quase não tenho um final feliz. Tive relacionamentos em que o amor foi em vão, que não valeram o esforço e nem as lágrimas que derramei. Mas deixaram sua marca e me ensinaram a lidar com sofrimentos futuros ou não. É muito complicada essa história de amores perdidos, encontrados, os bons e os ruins... Essa complicação toda me mostrou que cada amor vem com uma intensidade diferente. Mas ainda não vi e nem sei se existe um final diferente.
    Depois de tanta confusão, sorrisos, lágrimas, sentimentos, despedidas, encontros e reencontros e mesmo com os momentos em que a felicidade tomou conta do meu mundo, a frieza apareceu com um tempo. É até estranho uma pessoa tão sensível e romântica que se apaixona rápido dizer que é fria. Mas sim... Agora, uma das coisas que me fazem ser quem sou hoje é a frieza. Quando digo que me apaixono rápido, eu quero dizer que me apaixono a partir do momento em que deixo alguém me conhecer. Esse é o momento em que eu abro um espaço pra existir outra pessoa onde, na verdade, só deveria existir uma. E olha, isso demora muito... Acho que depois de tantos amores perdidos, fiquei meio na defensiva.
    Acho que tudo isso é como uma prova. Porque acredito que quando eu encontrar a tal “ALMA GÊMEA”,  ela terá vivido tudo isso que vivi. Quando estiver comigo, vai estar comigo... Realmente comigo... Alimentando e desfrutando a relação junto a mim, respeitando o espaço um do outro, aceitando os amigos e os defeitos e, principalmente, passando confiança.
   Confiança! A base para uma relação dar certo. Acho que não havia confiança o suficiente em meus relacionamentos anteriores. 
    Ah, aprendi também que liberdade às vezes faz bem, sabe? Um fim de semana com as amigas ou amigos não mata. É aí que você é testada. A tal “confiança” te pega nos dois lados da moeda.
         1 – Confiar nele.
         2 – Confiar em você, saber que mesmo que ele esteja com os amigos, ainda assim, prefira ficar com você.
        Parece difícil e é! E que todo aquele clichê pode acabar com tudo... O famoso “eu te amo” dito cedo demais acabou com a maioria dos meus relacionamentos - Esse povo está achando que a frase está virando “Bom Dia”, se liga! Essas promessas não cumpridas fazem do seu “eu te amo” puro mito.

    Enfim, é melhor eu parar por aqui. Senão vou começar a falar de tudo que ouvi, que vivi, que deu errado só nesse texto. Felizmente eu acho que aprendi, mas só vou descobrir quando um novo amor aparecer.


2.  Meu 1° amor drogado

Querido Diário;
Quero lhe contar sobre o meu primeiro amor e o que eu aprendi com ele:
    O que dizer sobre o primeiro amor? O que dizer sobre aquela pessoa que te fez fantasiar diversas cenas repetidas vezes? Eu, Julieta, posso confessar que sempre me pegava pensando em como seria nosso próximo encontro. Mas eu sempre me surpreendia, porque nunca era como eu imaginava.
    Nossa... Como eu e o Pedro éramos amigos inseparáveis! Para tudo que eu precisava, ele estava lá... Na verdade, éramos melhores amigos. Ele, de fato, era tudo para mim e eu era tudo para ele. Até ele começar a namorar... Sabe quando parece que você levou um soco no estômago sem estar esperando? Pois é... Foi assim que eu me senti quando descobri que meu melhor amigo estava namorando. Parece meio clichê histórias de amigos se apaixonarem, mas não são. Porque eu me apaixonei. Mas queria vê-lo feliz... Independente de com quem ele estivesse. Mesmo sabendo que eu não era a tão esperada felicidade dele. Talvez eu até pudesse ser, mas ele nunca soube do meu amor por ele. A namorada não se importava com ele como eu. Era lindo e era isso que importava para ela. Ninguém o conhecia como eu... Ninguém o ajudaria ou se preocuparia como eu!

    Bem, meu querido Diário, você não conhece o Pedro. Não como eu... Você só o conhece por alto. Então, deixe-me contar um pouco sobre esse garoto: Ele não é o que você pensa. Sei que sempre escrevi muito bem sobre ele aqui... Pela forma como ele me trata e tudo mais. Mas, na verdade, Pedro é apenas um garoto perdido no mundo... Sem orientação e que anda com pessoas erradas. Um tipo de garoto que quer ser popular na galera e acaba fazendo burrada para chamar atenção e por pilha de amigos muito mais perdidos nessa vida do que ele. Pedro era novo, gentil e de coração bom. Porém, tinha a mente muito fraca. Acreditava em tudo que dissessem a ele. Foi assim que ele conheceu o mundo das drogas... Como um menino inocente fazendo coisas porque diziam a ele que era legal.
   Foi exatamente por isso que nos aproximamos:  Drogas. Ele precisava de alguém para lhe dizer que aquilo era errado, para lhe mostrar que isso poderia acabar com a vida dele. Ele precisava de mim e eu estava lá... Pensei em desistir algumas vezes. Pensei em deixa-lo de lado, deixa-lo desistir dele mesmo. Mas deixa-lo fazer isso era a mesma coisa de desistir de mim e eu não queria aquilo. Sempre pensava em como aquilo poderia destruí-lo aos poucos... Porque, quando o via usando drogas, ou sob o efeito delas, aquilo me destruía também. Ele sempre me olhava com cara de culpado... Como se aquilo fosse mais forte que ele, mas não era a vontade de usar - como se já fosse um viciado - mas a vontade de ser alguém. Isso era o que mais me matava! Porque ele não precisava ser alguém... Ele só precisava ser o Pedro - era o bastante para mim. Tenho certeza que seria o bastante para as pessoas que o amassem de verdade.
   As pessoas, ao redor dele, nem ligavam para o que poderia acontecer, mas eu me importava porque eu o amava e me preocupava com ele. Lembro perfeitamente que chamei a descompensada da namorada dele para conversar sobre o assunto e sabe o que ela me respondeu? “Deixa ele” - Como assim?
    - Diário, meu querido, se um dia você conseguir me explicar, me der sabedoria o suficiente com as poucas palavras que escrevo em desabafo com você aqui para entender o raciocínio desse ser humano, ficarei extremamente grata.
   Esse era o exato ponto aonde eu queria chegar: Aquela estranha namorada que ele arrumou não estava nem aí para ele. Ela era super insensível, destratava ele na frente de todo mundo, bebia horrores e saía dando em cima de Deus e do mundo. Sempre achei aquilo ridículo e odiava quando ele vinha desabafar, querendo consolo, precisando de carinho, carente de atenção. Doía vê-lo chorando por alguém que não valia nada... Sabe, Diário, ela acabou aproximando ele ainda mais de mim. Acabou me fazendo ama-lo mais a cada dia que passava... Eu sei que eu não passava de uma amiga-irmã que o consolava quando estava triste, que o ouvia quando ninguém mais queria ouvi-lo... Mas ele era diferente e merecia muito mais do que só aquela tristeza, do que aquela humilhação que passava nas mãos daquela pessoa que só queria viver de aparência pra sociedade e mostrar que não estava sozinha; que tinha um namorado lindo, que fazia de tudo para ela, enquanto ela não dava nenhum valor a ele. Juro que qualquer garota que tivesse a oportunidade de ter ele em sua vida, seria a garota mais sortuda do mundo. Ele era incrível e só precisava de alguém para somar em sua vida. Nunca achei que eu pudesse ser essa pessoa porque sempre achei que ele merecia alguém melhor, muito melhor que eu, que realmente pudesse fazê-lo enxergar que ele é a melhor versão dele mesmo do jeito que era. Não precisava de nada... Não precisava de drogas, não precisava de pessoas negativas ao lado dele... Porque ele tinha capacidade de encontrar pessoas que valiam a pena para passar as tardes.
   Bem, diário, eu queria mais para ele e passei a lutar, de verdade, para que ele pudesse ver que existia outras alternativas. Eu briguei, fui atrás dele em lugares que ele falou para que eu nunca fosse... Até que, uma vez, eu parei. Parei de vez. Disse a ele que nunca mais eu queria vê-lo, que não queria falar com ele e nem saber dele. Disse que não iria ficar, de camarote, assistindo ele destruir sua vida por pouco... E fui embora. Eu fui embora! Larguei-o, larguei o grande amor da minha vida. Deixei o garoto que mais amei nesses últimos anos se destruir. Não teve um momento em que minha consciência não me agredisse... Eu me sentia culpada por deixa-lo sem ninguém... Sem minha presença ao seu lado... Ele era meu melhor amigo. Que tipo de amiga abandona o amigo quando ele mais precisa? Mas essa era a grande dúvida... Até quando ele iria precisar de mim? Até quando eu iria ser o consolo dele? Até quando eu iria ser aquela que ele procurava precisando de carinho e atenção? Depois de 2 dias, eu encontrei a resposta para todas as minhas perguntas: Ele iria precisar de mim até quando eu permitisse... E, quando ele apareceu na minha porta me pedindo perdão e mil desculpas, que conseguiria viver sem tudo aquilo, mas não conseguiria viver sem e jamais iria conseguir seguir em frente sem a minha presença na vida dele... Eu vi ali, naquele momento, que eu poderia mudar sua vida.
   O amor que eu sentia por ele era tão forte que a única coisa que importava era que ele estivesse feliz. Como eu já disse... Independe de com quem ele estivesse e onde estivesse. A felicidade dele era a minha. Eu só queria que ele tivesse uma vida melhor e diferente daquela que ele estava vivendo. Quando ele apareceu aqui em casa dizendo que conheceu um cara que o levou para igreja, eu ri. Ri mesmo... Achei engraçado. É quase impossível uma pessoa como o “novo Pedro” frequentar lugares como uma igreja. Mas fiquei muito feliz também... Então, mandei ele ir de novo e lhe disse que, de repente, era disso que ele estava precisando: Sumir um pouco de tudo, sair daquela zona de conforto na qual ele se alojou... E ele foi... E foi... E foi assim que fui perdendo o grande amor da minha vida. Quase não nos falamos. Mas foi lá que ele encontrou alguém que o amou de verdade. Esse foi o preço de mudar a vida dele: Tê-lo longe de mim. Mas eu sabia que, longe de mim, ele estaria melhor... Porque estava em um lugar melhor, com pessoas melhores. Estou feliz hoje em vê-lo saudável e feliz... Diferente de anos atrás. Ainda não o esqueci, nem quero. Sabe, querido diário... Esse é um amor que espero guardar para a vida toda. Pois foi com ele que aprendi que o mais importante é a felicidade do próximo. Eu sabia que ele precisava ir para poder ser feliz e sabia que sua felicidade não era comigo. Então, algumas coisas temos que deixar ir embora... Até porque, se um dia eu for a felicidade dele, ele vai voltar. Meu Pedro um dia vai voltar, se o lugar dele for aqui. Mas se não for, fico feliz por saber que ele se encontrou nessa vida.


3.  Caixa postal
Querido Diário;

Hoje quero lhe contar sobre quando eu me obriguei a me apaixonar:

   Passei por um momento na minha vida onde eu me vi tentando tapar um buraco que havia em meu peito. Um buraco enorme que parecia impossível de tapar. Vi-me totalmente perdida... Como se estivesse faltando alguma coisa na minha vida, como se todos os dias eu fosse dormir com a sensação de que me faltava ar... Faltava algo de extrema importância em minha vida. Eu me sentia doente e achava que precisava de remédios. Mas eu quero dizer “remédios sentimentais”:  Atenção, carinho... Eu precisava de alguém.
   Até que um dia, meu querido diário, conheci alguém... Amigo de umas amigas. Ele era legal, muito divertido, brincalhão... Brincalhão até demais, para dizer a verdade.
   Henrique era o tipo que não estava nem aí para nada. Só queria saber de dançar... Isso ele fazia muito bem. Era um ótimo dançarino, de fato. Porém, não tinha nada a ver comigo. Nós não tínhamos nada em comum. Éramos pessoas diferentes... Pensávamos de maneira diferente. A gente não se completava. Nada na gente parecia certo... Porque nada se encaixava. Mas mesmo assim, eu insisti em tentar algo com ele... Porque ele queria, ele queria tentar e não tinha medo disso – ou, pra ele, não fazia diferença. O que ele queria mesmo era só alguém para passar o tempo quando não estava curtindo com outras garotas ou quando não estava fazendo outras coisas que ele julgava mais importantes... Meio que juntou o útil ao agradável. Ele era útil para mim. Eu achava que ele poderia tapar aquele buraco que estava em meu peito e eu era agradável para ele: Uma garota bonita, solteira e carente... Doida para achar um substituto para curar seu coração partido. Eu o estava usando e não ligava para isso porque ele não se importava com isso. Ele não se importava com nada.
   Eu estava confortável com aquela situação. Não quero que me julgue... Mas, sabe diário... Até certo ponto, aquilo realmente era agradável. Em certos momentos, era sufocante. Tinha dias que eu não queria vê-lo. Às vezes, as mensagens dele me irritavam. Mas, mesmo assim, eu continuava ali... Dizia a mim mesma que era apenas uma questão de costume. Contudo, eu estava começando a perceber que não o conhecia. Mesmo estando com ele, era como se, ao mesmo tempo, eu não estivesse. Porque eu não queria conhecê-lo e, com certeza, não queria que ele me conhecesse. Eu simplesmente não conseguia me abrir para ele. Não cofiava nele. Meus instintos não queriam confiar nele.
   Ele gostava de viver e aproveitar o momento. Isso era o que ele dizia e eu comecei a levar aquilo ao pé da letra... Porque, às vezes, me dava vontade de conversar, de desabafar com alguém. Entretanto, toda vez que eu ligava, as ligações, de repente, passaram a cair sempre na caixa postal. Pra ele, eu era apenas aquilo... “Aquilo” que eu digo é sobre eu ser a “segunda opção”. Isso não devia me magoar... Eu estava usando ele! E não me magoava... Me incomodava um pouco, mas eu estava ali, tentando me relacionar com ele. Às vezes eu estava disposta a deixar ele entrar na minha vida. Mas aí, toda vez que eu o procurava, caía na caixa postal.
    - Qual era o problema dele?
   Eu estava ali tentando... Eu precisava dele para tapar aquele buraco. Eu precisava dele para poder me salvar. Será que isso era difícil? Será que ele não entendia isso? Será que era culpa minha?
   Por que eu não conseguia ama-lo? Sei que somos diferentes, mas aquela era a única maneira. Eu realmente achava aquilo. Eu, realmente, achava que aquela era a única maneira.
    Nossa, eu era louca e estava desesperada e mais impulsiva que nunca.
   Eu sempre achei que, para se curar de um amor, você deve amar novamente... Encontrar um novo amor... Acredito que a dor de um amor só se cura com outro. Quando isso aconteceu, meu diário, eu estava me obrigando a ama-lo para curar meu coração. Mas não é assim que funciona. Não é assim que acontece o amor. E, de verdade, se você quer saber, não considero que meu coração esteja ferido para ser curado. Só está sem sua metade, sentindo falta de algo... De algo que o pertencia e que hoje está distante. Totalmente fora do alcance das minhas mãos. Pelo menos eu aprendi que não se obriga ninguém a ficar e, muito menos, um coração a amar sem intenção, sem vontade, sem a menor vontade sentir saudade.


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